Mais um dia
Que irônico, voltei a escrever neste maldito lugar justamente por ter tanto pra falar, desabafar, contar pra mim mesmo. E agora, mesmo tendo escrito nada, desabafado nada, chorado nada, não tenho pra falar, nada.
Queria entender, por que mesmo tendo tanto pra expressar, não posso encontrar palavras que descrevam o que precisa ser descrito. Será falha da língua, ou dos que criam a língua. Lendo o Senhor dos Anéis, é fácil perceber a necessidade dos elfos de conversarem com todas as coisas, o Mar, as árvores, animais. Eles podem porque querem, ou querem porque podem? Poderiam eles descreverem o que eu gostaria de descrever?
Mas, refletindo, percebo que não é só na tristeza que a falta de expressão vem, passo a pensar agora, seria a expressão um dom dado a poucos de nós? Poucos com o sangue dos elfos que a muito foram ao oeste? Tinha tanto para dizer em poesias, tantas escritas em minha mente, posso ler a cada uma com perfeição, deliciar-me com o agudo sabor da dor, mas não posso passa-la ao papel, a não ser com as lágrimas do fracasso. Mas de que adianta um papel borrado, e em branco?
Branco, não uma final, mas um começo, o branco pode se dividir em todas as cores, um papel branco pode ser usado para a escrita, e inúmeras outras, como dito num diálogo de magos, e como também é dito, destruir algo para entende-lo não é sábio. Sábio então seria aceitar algo que o coração sente correto, mas o corpo não? Pode o corpo discordar do coração? Posso eu discordar de mim mesmo? Acho que sim, isso é justamente o que faz de mim humano. Discordar do que é, mudar, e voltar a duvidar.
Interessante como nesses textos faço tantas perguntas, lembro-me quando comecei a escrever, havia apenas respostas. Não lembro se porque eu sabia mais, ou se porque meu botão de interrogação estava quebrado.
Queria poder escrever poemas que os outros se identificassem com eles. Me disseram que eu fazia isso, mas não consigo ver. Impressionante como escuto músicas que parecem terem sido escritas para mim, por alguém que me conhece melhor do que eu mesmo. Dizem que os homens são assim, identificam-se com o que vêem, parece verdade.
Queria agora, por poucos momentos, desligar-me da necessidade de entendimento, escrever coisas bobas, sobre uma vida alegre, pois a bobagem é alegre. Mas, ao ver como as coisas tendem a se destruírem, não sei se consigo. Por que se largamos algo, ele cai, e não espera, até que voltemos a pega-lo?
Vou tentar alguns versos agora, para me lembrar do meu sucesso ou fracasso, daqui a alguns anos, quando minha vida voltar, novamente, a este ponto, e eu leia o que escrevi em fracassos passados:
Havia no horizonte um brilho que iluminava a fronte
a grama verde reluzia mil pássaros e o Sol não sumia
dava um brilho vermelho ao monte e violeta ao mar
e por horas poderia ele olhar, não fossem as árvores o ocultar
deitado na grama vejo várias cores
o sol se vai e vem a noite densa
mesmo a luz não branca traz amores
por num arco-iris a paz que vença
Sabia que não veria tamanhã ilusão
Que a noite viria como sussego
apego-me com muito apego
e a relva poderia ser meu caixão
Mas não o tempe não, melhor ver o céu
que aos poucos escurece, e mais cores vejo
poderia delas tecer tamanho véu
para satisfazer tudo o que desejo
cobrir-me com a alegria
mesmo que a sombra venha
e que o dia não sorria
pra manter a chama basta lenha
que é facil de achar, não como um sorriso
lembro-me de te-lo ao ver nas árvores, guizo
o som doce do mar, volta o meu desejo de viajar
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